O Dilema Moral e a Experiência Religiosa

Comentário sobre a Porção Semanal Vaierá

“Depois destes acontecimentos, D-us submeteu Abrahão a um teste. E disse-lhe: ‘Abrahão!’ E disse: ‘Eis-me aqui’. E disse: ‘Toma, rogo, teu filho, teu único, a quem amas, a Itzchak, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali como oferta de elevação, sobre um dos montes que te direi”.

(Gênesis 22, 1-2)

 

A história do sacrifício de Itzchak constitui um tema central na visão do mundo da Torá. Mediante uns poucos versículos, a Torá nos enfrenta com a pergunta profunda e ardente da fé religiosa.

Abraham Avinu foi posto à prova em numerosas ocasiões. O sacrifício de Itzchak, entretanto, foi a prova mais difícil de todas. Depois de ter sonhado e almejado durante longos anos que sua esposa Sara lhe desse um filho, até que finalmente seu desejo foi alcançado, D-us lhe ordena, subitamente, que ofereça essa criança como sacrifício.

D-us lhe dá esta ordem depois de ter prometido a Abraham que “sua semente se multiplicaria como grãos de areia, que seus descendentes seriam numerosos como as estrelas do céu…”

O filósofo judeu alemão Franz Rosenzwaig (1886-1929) explica em seu monumental livro “A Estrela da Redenção” por que D-us precisa por o homem a prova, nesse relato a Abraham:

“D-us deseja que os homens sejam livres. Assim, Ele, que deseja distinguir entre as almas, não tem alternativa senão colocá-las à prova. Para isso não apenas deve esconder Sua realeza, mas também deve desorientá-lo nesse sentido, até que o homem se  fortaleça  e  possa verdadeiramente crer em  D-us. Crer n’Ele através da liberdade, e confiar n’Ele. O homem deve compreender que D-us o põe à prova, para que sua fé se oponha a tentação e possa tapar seu ouvidos diante dos eternos murmúrios da perdição. O homem deve saber que ele é submetido à prova em nome de sua liberdade. Deve aprender a confiar em sua liberdade. Deve acreditar, porque enquanto tiver dúvidas e esteja limitado por todos os lados nos demais aspectos, em relação a D-us, ele é totalmente livre”.

A história do sacrifício de Itzchak, segundo aparece no texto bíblico, constitui um exemplo extremo de seu estilo sintético e conciso. Os nomes dos jovens que acompanham a Itzchak não são mencionados. No existe descrições de paisagens, nem das conversas que mantiveram no caminho. A Torá nos apresenta um idoso que ao chegar a idade de cem anos conseguiu ter um filho, e se dirige então para a dura provação de fé que implica sacrificar ao seu filho, obedecendo uma ordem recebida.

A viagem se prolonga durante três dias. O que aconteceu no transcurso dessa viagem? Como foi o caminho? O que aconteceu no coração e na alma do pai? Quais eram os pensamentos do filho? Qual foi o diálogo entre ambos? Por acaso Abraham preparou a seu filho para o que estava por acontecer?

Sobre tudo isso, a Torá nos brinda informação concisa e técnica: “E levantou-se e foi ao lugar que D-us lhe indicou. No terceiro dia…”

Podemos imaginar o que acontecia na mente de Abraham durante esses três dias? A Torá se limita a relatar-nos como saiu Abraham de seu lar ao amanhecer, para depois passar a: “No terceiro dia levantou Abraham seus olhos e viu o lugar de longe…”

Aqui a Torá brinda o leitor a oportunidade de imaginar quais foram os pensamentos, sentimentos e dúvidas de Abraham durante esses três dias. A Torá não se ocupa de descrevê-los, deixando que cada pessoa construa sua própria versão.

Para poder encontrar uma resposta às perguntas anteriores e adivinhar o que ocorria dentro do coração dos protagonistas, devemos adentrar no mundo em que ocorre a história do sacrifício de Itzchak. Devemos vestir roupas, colocarmo-nos no lugar deles e percorrer o caminho, tratando de sentir e pensar como eles.

O leitor ou o estudioso que enfrenta a história do sacrifício de Itzchak deve estar em estado de choque e em conflito, e às vezes, inclusive, chegar até a exasperação.

As coisas excedem a possibilidade de ser descritas e avaliadas. Toda descrição torna-se simplista e geral. Somente o silêncio pode definir esses três dias decisivos. Cada um deve enfrentar esse silêncio e perguntar-se: Como foi? Teria Abraham dormido durante essas noites? Estava sentindo-se excitado e emocionado? Acaso caminhava cabisbaixo e triste? Se cada pessoa se coloca no lugar de Abraham, durante seu caminho para o sacrifício, poderá entender a si mesmo e captar sua própria essência. Aquele que se coloque em lugar de Abraham, se converterá em parte inseparável do drama que se desenvolveu durante esses três dias determinantes.

No Talmud e no Midrash, nossos sábios interpretam o silêncio neste relato e nos brindam suas enriquecedoras explicações sobre seu significado.

O homem deve enfrentar a cada geração, a grande pergunta de todos os tempos: devemos sacrificar nossa própria vida, ou a de nossos filhos, em nome de um ideal?

Em distintas épocas, os judeus tiveram que enfrentar esse dilema, e apesar de não encontrarem nenhuma explicação lógica para isso, preferiram entregar seu corpo antes de entregar sua alma. Na época dos romanos, durante as guerras dos Chashmonaim (Macabeus), nas rebeliões nos guetos e nas guerras de Israel durante os últimos cem anos, os judeus demonstram que nosso povo escolhe seguir vivendo de acordo com sua fé, de acordo com os ideais que o inspiram, apesar dos numerosos obstáculos que surgem em seu caminho.

Para o povo judeu, a história do sacrifício de Itzchak se converteu num símbolo vivo, através do qual se guiam as gerações seguindo as milagrosas trilhas do respeito a D-us e da disposição em sacrificar-se em nome da continuidade do judaísmo. O sofrimento das gerações, simbolizado nos sacrifícios ininterruptos, que não deixaram nenhuma geração incólume, atenuou a importância da história e aprofundou o apego e a identificação do povo com esse singular episódio.

Quando analisamos a história do sacrifício, podemos considerar também a seguinte pergunta: Quais são as características da experiência religiosa? Comumente pensamos que o homem religioso vive num paraíso. Confia no que faz, em sua fé, em si mesmo, e em sua vida tudo é simples e bem claro. A análise do sacrifício de Itzchak nos revela uma situação, humana e natural, na qual Abraham, seu protagonista, tem que enfrentar perguntas, dilemas e dúvidas antes e durante o cumprimento da ordem de D-us.