Interpretando Sonhos e Sonhadores

Comentário sobre a Porção Semanal de Vaietze   

“E Yaacov partiu de Beer-Shéva e foi a Haran. E chegou a um lugar e dormiu ali, porque o sol havia se posto… E sonhou, e eis que uma escada estava apoiada na terra e seu topo chegava aos céus, e eis que anjos de D-us subiam e desciam por ela. E eis que o Eterno estava sobre ela…”

(Gênesis 28, 10-13)
Um dos sonhos mais maravilhosos que alguma vez sonhou um homem, foi o sonho de Yaacov quando saiu da casa de seu pai rumo a Haran.

Já na antiguidade bíblica o sonho suscitou uma atitude de respeito e valorização juntos, é verdade, com uma certa suspeita e, inclusive, uma sincera reserva.

Esta ambivalência divide também o texto talmúdico e se prolonga até nossos dias. A tensão entre uma atitude que vê no sonho uma possibilidade transcendente e aquela que o considera um fenômeno natural que não vai mais além do psíquico do indivíduo que sonha, gera, em seu movimento, a riqueza simbólica irredutível da vida onírica.

O sonho não é somente o terreno onde surgem os símbolos, mas é também o modo de expressão do figurado por excelência. Em outras palavras, o sonho é símbolo que fascina, comove e clama por ser interpretado.

A concepção dos sonhos no judaísmo e no mundo moderno é distinta e origina interpretações que não possuem o mesmo tom nem a mesma orientação. O Rabino Kuk se refere ao valor do sonho e a seu alto significado como superação da realidade e como via de acesso a “verdade do ser” mais íntima.

Outros pensadores tentam definir o sonho como “conjunto de vivências” que se suscitam ao dormir e que são lembrados na insônia. Porém estas vivências existem durante o sonho como a própria realidade.

Erich Fromm ressalta o desenvolvimento da concepção do sonho ao assinalar a importância do fenômeno onírico para a compreensão da vida inconsciente.

Em seu importante livro a interpretação dos sonhos, Freud fundamenta sua concepção de que o sonho nada mais é do que o desejo expressado de distintos modos.

O sonho da escada que vai ao céu inaugura o ciclo de Yaacov, fundando seu itinerário ascendente. A escada assinala o caminho ao “alto”. Porém não apenas isso, ela é o símbolo da comunicação ininterrupta entre o homem e o Criador.

Seus anjos (também “enviados”, em hebraico bíblico) sobem e descem comunicando os desígnios Divinos.

Ao despertar, Yaacov, depois de ter escutado a promessa Divina, denomina o lugar de seu sonho Bet-El, pois este, nada mais era, em sua opinião, do que a Casa de D-us e a Porta do Céu.

Trata-se de um pacto que se baseia na promessa e na fundação do lugar: Bet-El.

Este pacto contém a presença ativa de D-us no sonho e a resposta ativa de Yaacov ao despertar. A escada intervém entre ambos momentos do pacto. O sublime e o terreno se unem através da imagem da escada.

Yaacov, que declara não saber que D-us estava ali, estabelece seu reconhecimento ao conceito de Onipresença Divina. Em qualquer lugar, em todo lugar, está D-us. Porém o lugar de Sua Revelação não é qualquer lugar; converte-se em Sua Casa. Desde o extremo superior da escada ao inferior, transmite-se o caráter sacro pelo qual um simples lugar se converte num lugar sagrado.

A parte inferior da escada está assentada na terra e Yaacov repousa sobre ela. A visão onírica recorre à escada até posar finalmente na imagem do D-us da Promessa. A promessa eleva a Yaacov; a ordem dos versículos corresponde a essa elevação do geral ao particular. Da generalidade espacial; “A terra na qual estás deitado, darei a ti e a tua descendência” e a generalidade temporal anunciada em: “Será tua descendência como o pó da terra”, aos cuidados de um D-us tutelar: “E aqui eu estou contigo…”

É possível interpretar este singular sonho de Yaacov partindo também, do ponto de vista psicológico ou histórico.

O sonho de Yaacov, o sonho da escada, é uma síntese da vida de Abraham e de Itzchak, as quais de algum modo representam modelos opostos, segundo o relatado na Torá, sobre seus modos de vida, mesmo que não seja feito de maneira explícita. Abraham responde as ordens celestiais, enquanto que Itzchak se encontra atado a terra não apenas fisicamente mas também emocionalmente, como demonstrado por seu amor a Essav. Evidentemente, Abraham caminha pela terra seguindo ordens celestiais; obviamente também Itzchak, o prisioneiro, aceita o jugo celestial. Mas apenas em Yaacov se conjugam estas duas bases no terreno simbólico e no real, nos sonhos e na vigília.

A luta entre a essência básica de Abraham e de Itzchak gera a escada pela qual baixa o mesmo D-us que responde as angustias de sua alma. Yaacov é abençoado através de todo o bem material, havendo estado unicamente com seu bastão e sua mochila, carente de tudo, com apenas uma pedra embaixo de sua cabeça. Também seu avô, Abraham, abandonou a casa de seu pai e sua terra, mas não estava fugindo, havia recebido uma ordem Divina e tinha uma meta conhecida, uma finalidade. Yaacov escapa da terra que era a própria finalidade, por temor a seu irmão, com rumo ao desconhecido. É o primeiro exilado.

O Midrash nos apresenta uma explicação histórica sobre este sonho que parece sumamente atual e moderna em nossos dias, quando a concepção histórica toma um lugar tão importante: “Disse Rabi Shmuel Bar Nachman: refere-se aos ministros das nações… e ensinou D-us a Yaacov o ministro do reino da Babilônia elevando-se durante setenta anos para depois descer; o ministro do reino Medo elevando-se durante cinqüenta e dois anos para em seguida descer, o ministro do reino da Gracia elevando-se durante cem anos e logo depois descer, e o de Edom para elevar-se e em seguida descer. Nesse momento temeu Yaacov e disse: ‘por acaso este não descende’?, e  D-us lhe respondeu: ‘Por isso não temas, meu servo, Yaacov… nem te desesperes, ó Israel’ (Jeremias 30:10); ‘ e mesmo que aparentemente vês que ascendes e te aproximas de Mim, de aí o baixarei, como está dito: embora subas ao alto como a águia e ponhas o teu ninho entre as estrelas, dali te farei descer’”. (Obadias 1:4)

De acordo com este Midrash, o sonho apresenta  um quadro histórico da humanidade, o ascender e descender dos povos e suas culturas até o fim das gerações. A explicação do Midrash é que tal sonho não se refere a Yaacov, o homem que foge da casa de sei pai, mas a Yaacov-Israel, da nação que perambula por terras e é conduzida, geração após geração, entre povos gigantes; nação exilada de toda terra. O Midrash prevê a elevação dos povos e dos reinos do Egito, Assíria, Babilônia, Pérsia e Grécia, e a decadência de Roma e de seus descendentes denominados com o nome de Edom pela literatura do midrash, os pensadores e versificadores, os poetas e os exegetas da Idade Média.

Esta escada – o tempo – na qual toda ascensão depende de algum descenso e toda construção está apoiada nas ruínas de outra precedente, n]ao é uma escada infinita: em seu extremo se encontra D-us.

Deste modo ocorre o primeiro sonho bíblico e um dos mais profundo: uma escada estava apoiada na terra e seu cume chegava aos céus. Sobre seu extremo se apoiava D-us, o D-us de Abraham, de Itzchak e D-us dos céus e da terra. E esta escada não é silenciosamente abstrata mas intensamente viva, degraus pelos quais sobem e descem anjos…

A imagem da escada do sonho de Yaacov – em seu caminho ao exílio – vem fortalecer no seu coração a idéia fundamental que ensina que a vida do homem não é horizontal, mas vertical, e possui depressões e alturas invisíveis, mesmo que reais. A fim de lembrar-lhe que as lutas que o esperam em seu caminho até a casa do trapaceiro Laban não representam mas que desafios para seu espírito. Caso os vença merecerá ser e será Yaacov.