Da Escravidão à Liberdade

Comentário sobre a Porção Semanal de Shemot

Enquanto o Gênesis é o relato da criação do universo e do homem, o livro de Êxodo (Shemot) é por sua vez, o relato fiel da criação de uma nova nação.

Todos os relatos do Gênesis posteriores a criação giram em torno a personagens. No núcleo dos capítulos se encontram algumas personalidades: Adão, Cain, Noé, os patriarcas…

Ao invés disso, já desde o primeiro capítulo do Êxodo, vislumbra-se a aparição do povo de Israel como uma entidade central. De fato, no Êxodo os nomes e os detalhes se desenham a favor de uma nova figura: o povo de Israel.

No Êxodo não existem nomes nem individualidades, já que estes cedem a transcendência do coletivo. A geração dos grandes patriarcas desaparece, em seu lugar surge o conceito de uma nova nação.

É interessante assinalar que pela primeira vez, Israel é chamado de povo, e tal definição vem da boca do Faraó egípcio.

O paradoxo é que um dos grandes inimigos do povo Judeu os define como uma entidade nacional. Este fato nos deixa, como conseqüência, o conhecimento de que em muitas oportunidades através da história, tribos e famílias se transformam em povo e recebem sua identidade precisamente através de outras nações ou povos com os quais convive e não desde uma fonte intrínseca.

O Gênesis culmina com o assentamento dos filhos de Yaacov na terra do Egito. O Êxodo começa com o relato das famílias que emigraram ao Egito.

O Êxodo é o livro da mudança. É o livro que relata a dramática alteração da situação dos hebreus desde a bonança nos tempos de Yosef, até o auge do descrédito ao perder a liberdade e converter-se em escravo do faraó.

Como a escravidão no Egito foi o primeiro episódio da diáspora judaica, é conseqüentemente o primeiro episódio da libertação e redenção.

O povo, mesmo que tenha sido escravizado pelos egípcios, é finalmente resgatado por seu D-us, de tal modo que podemos definir o Êxodo como o livro que relata a passagem da escravidão à liberdade.

Este caminho da escravidão à liberdade manifesta não apenas um período na vida do povo Judeu, mas constitui um exemplo ímpar para descrever a liberdade do homem como conceito universal.

Qual é o conceito de liberdade segundo nossas fontes? Tanto a Torá como todas as nossas fontes espirituais atribuem à liberdade um sentimento medular. Conceitos tais como a autonomia e a responsabilidade individual são apenas possíveis em um marco de liberdade.

Apesar da importância do conceito de liberdade na religião judaica, não existe um valor tão paradoxo e problemático como este.

O filósofo Issaiah Berlin descreve, em seu livro “Quatro Prosas da Liberdade”, que o conceito de liberdade teve até os dias de hoje umas duzentas definições e ainda não podemos entender o que é exatamente.

Aparentemente, a liberdade é uma condição natural, uma situação biológica inerente ao homem…; entretanto, o homem nasce realmente como um ser livre, ou a liberdade é adquirida somente através da experiência e dos obstáculos?

A escravidão tem dois aspectos: um deles o legal denigre a condição humana, faz do ser humano um objeto, propriedade do amo, ao mesmo nível que qualquer outra possessão que este tenha em seu pecúlio.

Um segundo aspecto é psicológico, já que o sentimento do escravo do ponto de vista espiritual é ainda muito mais penoso do que qualquer aspecto físico. Este sentimento, essa mentalidade de inferioridade, subsiste mesmo em homens que do ponto de vista legal, sejam livres.

Um assunto interessante de ressaltar, é que o povo judeu foi subjugado e escravizado como entidade grupal e não em termos individuais; é o caso em que uma sociedade mais poderosa assume o controle sobre um grupo minoritário.

Os estilos de escravidão diferem segundo os povos e os tempos. Na antiga Grécia, por exemplo, os escravos eram uma propriedade privada de indivíduos. Em outros povos totalitários, o próprio Estado é quem escraviza uma boa parte dos cidadãos. Esta diferença é significativa, já que no caso da escravidão individual ocorre uma relação pessoal particular entre o escravo e seu patrão; ou seja, existe uma inter-relação peculiar apesar da diferença de situação entre ambos interlocutores.

Está aberto o caminho para entender ao próximo e podem ser estabelecidos sistemas de intercomunicação e relação, tais como os sentimentos de fidelidade, ódio, compreensão, etc.

No caso da escravidão social ou grupal, surge uma relação despersonalizada, isenta de sentimentos individuais.

No Egito, os judeus eram uma possessão do Estado. Eles não eram a possessão de um cidadão egípcio, mas do Estado totalitário, de modo que os judeus passaram a ser uma engrenagem a mais, uma peça do poderoso império egípcio.

Desta parashá obtemos duas lições: a primeira refere-se à condição de escravidão como resultado da conseqüência direta de quem quer governar sobre as fontes primárias da existência humana. De fato, o Faraó conseguiu mudar, graças a ajuda de Yosef, a situação econômica do Egito, chegando a ser esta nação um verdadeiro império que reuniu alimentos e terras. A vontade de governar a natureza, se complementa com a necessidade de controlar também as pessoas que possam extrair do meio ambiente mais do que ele pode nos dar naturalmente. Assim o Faraó se transformou em uma semi-deus egípcio, com a personalidade de um governador totalitário sobre todo seu império.

A segunda lição é que, assim como Abraham, que inicio o seu caminho libertando-se de uma cultura idólatra em favor do monoteísmo, também o povo de Israel teria que passar por essa experiência, livrando-se de uma cultura idólatra em direção à sua liberdade espiritual.

A passagem da escravidão à liberdade começou quando a primeira chegou a um nível de sofrimento que não se podia mais suportar. A gota d’água foi o edito do assassinato de toda criança do sexo masculino que pertencesse ao povo de Israel.

A saída do Egito e a entrega da Torá assinalam as bases para o desenvolvimento de toda a humanidade, já que nem a liberdade sem lei, nem a lei sem liberdade podem perdurar eternamente.

Desse modo, o povo judeu é criado sobre dois grandes pilares: liberdade e lei. A saída do Egito e o legado da Torá são, por tanto, a essência de sua existência.