Por que Israel ignora os judeus da China?

A mais importante competição esportiva do mundo, terá início em poucas semanas, mas Israel já está cometendo um erro olímpico.

Os próximos Jogos Olímpicos que acontecerão no verão de 2008 na China, brindarão novamente ao Estado Judeu a oportunidade de destacar-se no cenário mundial.

Como de costume a delegação participará da cerimônia de abertura, marchando orgulhosamente no Estádio Nacional de Beijing agitando a bandeira azul e branca diante de todo o público presente. Este, é sem dúvida, um momento que definitivamente chama a atenção e toca o coração de todos os judeus do mundo.

Este ano, terá também um outro propósito, de demonstrar a muitos cidadãos chineses que ainda não se interaram, o quanto vem melhorando as relações entre Beijing e Jerusalém desde o estabelecimento das relações diplomáticas em 1992.

Porém, diferentemente de outros anos em que Israel e seus atletas aproveitavam os Jogos Olímpicos para demonstrar as comunidades locais sua solidariedade e irmandade, nenhum gesto como esse está na pauta para os próximos jogos. Infelizmente, Israel está dando as costas para os judeus chineses.

Sim, você está lendo corretamente. Existem de fato judeus na China, herdeiros de um antigo e valioso patrimônio que data de mais de 1000 anos. Os primeiros judeus, acredita-se que se afirmaram na capital da China Imperial, Kaifeng, ao longo da praia do rio Amarelo, durante a Dinastia Song.

Durante dois séculos, os chineses deram aos seus judeus uma confortável estadia, livre de perseguições, característica marcante em distintas comunidades judaicas da diáspora.

Em 1163, os judeus de Kaifeng construíram uma belíssima sinagoga, que foi conseqüentemente renovada e reconstruída numerosas vezes. Em seu apogeu, durante a Dinastia Ming (1364-1644), os judeus de Kaifeng eram em torno de 5000 pessoas.

No entanto, por volta de 1800, uma grande onda de assimilação e matrimônios mistos apagaram todos os vestígios de judaísmo na China. Após o falecimento do último rabino da comunidade, durante a primeira metade do século XIX, o judaísmo de Kaifeng praticamente desapareceu.

Mas esse não é o final da história. Contrariando todas as probabilidades, os judeus de Kaifeng conseguiram preservar sua identidade judaica, transmitindo o pouco que sabiam aos seus descendentes.

Hoje em dia, ainda existem centenas de pessoas na cidade, que podem ser claramente identificadas como descendentes da comunidade judaica. Entretanto, a política do governo israelense ao longo dos anos tem sido essencialmente ignorar os descendentes de judeus de Kaifeng, receando que o governo chinês não veja de forma positiva tal contato.
Por não ser um grupo oficialmente reconhecido como minoria na sociedade multicultural da China, e por não ser, o judaísmo, a religião oficial do país, a questão específica sobre o status dos judeus de Kaifeng é uma pergunta sensível para Beijing. Devido também as emergentes relações econômicas, culturais e turísticas entre ambas nações, Israel prefere não ingressar no delicado assunto.

Conseqüentemente, a Embaixada de Israel em Beijing não mantêm relações com a comunidade de Kaifeng, nem faz nenhum esforço para contatá-los. Representantes da comunidade não são convidados para participar do ato anual em celebração ao Iom Haatzmaut nem a nenhuma outra das atividades da Embaixada.

Apesar da existência de vários programas educacionais de intercâmbio entre China e Israel, o governo israelense não vem realizando nenhum esforço para permitir que a comunidade judaica de Kaifeng possa participar dos mesmos.

De fato, muitos membros da comunidade, comentaram-me recentemente , que não lembram quando foi a última vez que tiveram contato com alguém de Israel.

Este triste desenvolvimento dos fatos, pode e deve ser corrigido. Israel não tem razão nenhuma para virar-lhes as costas. Muitos desses judeus de Kaifeng, estão realmente interessados em aprender mais acerca de sua herança e cultura.

China sempre tratou seus judeus de forma amável e cortez, e não existe razão alguma para acreditarmos que as coisas mudaram. Israel pode e deve estender a mão aos judeus chineses, ao mesmo tempo que supostamente estará respeitando as sensibilidades do governo chinês. A atmosfera internacional que provêem os Jogos Olímpicos, é uma excelente oportunidade para que Israel realize este significativo passo em conjunto com o governo da China.

No passado, os Jogos Olímpicos serviram como momento de reunião. Em 2000, nos jogos de verão de Sydnei na Austrália, Israel e os atletas locais participaram de uma série de eventos organizados pela comunidade judaica local. Eventos tais como, alojamento dos atletas em Shabat e a gravação de uma placa em recordação dos atletas judeus que foram assassinados durante os Jogos de Munique em 1972.

Similarmente, em 2002, nos jogos de inverno na cidade de Salt Lake, Utah, Israel e os atletas judeus participaram de duas recepções oficiais organizadas pelos judeus de Utah.

Por que os representantes israelenses não podem realizar gestos similares, durante os próximos jogos, com os remanescentes dos judeus de Kaifeng? Os judeus chineses podem ser uma importante ponte cultural entre os dois países, fortalecendo nosso sentido de passado dividido e futuro em comum.

Os judeus de Kaifeng representam a união viva de ambas civilizações, e sua contínua existência não é apenas um testemunho do poder da memória do judaísmo, senão também dos laços de amizade que tem existido entre China e o povo judeu por mais de 1000 anos. É chagada a hora de Israel deixar de ignorá-los.

Esperamos, que nos Jogos Olímpicos do mês que vem, os atletas israelenses ganhem e tragam para casa inúmeras medalhas, honrando a si mesmos e a todos nós. Porém creio que não haveria uma honra maior para eles, se renovassem os laços entre o Estado de Israel e os judeus de Kaifeng.