Um judeu encontra bondade na Polônia

As vezes, uma viagem ao passado nos brinda uma melhor compreensão do futuro.

Em recente viagem pelos intermináveis caminhos de campos verdes e montanhas arborizadas do sudeste da Polônia, foi fácil deixar-se levar pelo belo cenário.

Os belíssimos campos repletos de paisagens viva e de uma linda brisa nos dizem que a primavera ainda não chegou por essa tão fértil e frondosa terra.

Porém, logo impulsivamente, chega o inevitável, quando a memória do acontecido há algum tempo, rapidamente parece captar a impressionante paisagem.

A caminho de Kanczuga , uma pequena aldeia entre Rzeszow y Przemysl, onde vivem cerca de 3000 pessoas programei uma pequena parada. É um pequeno ponto no mapa, porém um importante lugar na história de minha família.

Antes do Holocausto, aproximadamente 40% da população de Kanczuga era judaica, e tem quem opine que este percentual era ainda maior. Até o dia de hoje, o símbolo oficial da municipalidade tem uma estrela de David no centro, como se fosse um reconhecimento oficial sobre o rol que tiveram os judeus na vida comunitária do município, ao longo dos séculos.

Entretanto, nada ficou visível que possa relatar acerca do passado, a não ser a memória.

Em 1942, os judeus de Kanczuga foram rodeados pela polícia nazista e polonesa. Depois de serem agrupados na Grande Sinagoga, foram levados ao alto da colina onde ficava o cemitério judaico e foram sistematicamente assassinados. A população local, celebrou o fato com um piquenique e um brinde em honra aos policiais, quando os assassinos começaram a disparar.

Toda a vitalidade e o verde que me rodeava, desapareceram repentinamente, enquanto pensava sobre o que havia ocorrido com meus familiares.

Utilizando um mapa e informações que recolhi na internet, localizei um pequeno edifício que em algum momento serviu de sinagoga. Ali dentro, 7 ou 8 operários poloneses trabalhavam na demolição da estrutura interna do lugar que seria transformado num ponto comercial. Pilhas de escombros estavam espalhados por toda a área e grandes buracos no teto faziam visíveis as paredes originais de ladrilho da casa de oração.

Enquanto caminhava pela desordem, não pude deixar de observar os olhos exclamativos dos operários me observando, olhavam para a kipá em minha cabeça e depois olhavam para mim novamente. Sem me preocupar, continuei caminhando pela obra tirando fotos e recitando uma oração, capítulos dos salmos, e me perguntei se este era verdadeiramente o lugar onde meus ancestrais entregaram seus corações ao criador.

Bastante emocionado, senti a necessidade de contar aos operários o que foi este lugar naquela época. Por alguma estranha razão, queria que eles soubessem que este lugar foi um recinto sagrado.

Um dos homens parecia falar um pouco de inglês, e eu tentei explicar-lhe que neste prédio funcionava uma sinagoga antes da guerra, e que minha família vivia nesta região. Ele sorriu um pouco incomodado, antes de ir-se, e me fez pensar que motivo eu teria para me preocupar em dizer-lhe o que disse.

Porém, após alguns minutos, quando me preparava para ir embora, esse mesmo trabalhador aproximou-se de mim pelas costas e bateu no meu ombro. Virei-me, sem estar seguro do que me esperava, ele me entregou umas folhas amarelas, rasgadas e empoeiradas.

Imediatamente, reconheci o texto em hebraico, e não estava acreditando no que tinha em minhas mãos, eram páginas de um Sidur (livro de orações judaicas), que estavam jogadas por mais de sessenta anos. Comecei a tremer só de pensar o que havia acontecido ao último judeu que esteve com aquele Sidur em suas mãos, durante a terrível época dos assassinatos realizados pelos nazistas.

Homens adultos não deveriam chorar, e principalmente na frente de outros. Porém não pude evitar e as lágrimas começaram a fluir. Os operários me rodearam, e mostraram as paredes e o teto, indicando que haviam encontrado estas folhas quando demoliam o edifício internamente.

Enquanto um me dava uns tapinhas nas costas tentando me consolar, os outros foram ao outro quarto. Não demorou muito, e um a um, retornavam trazendo montantes de folhas em hebraico. Sessões do Talmud, páginas da Mishné Torá de Maimônides, porções do Pentateuco e de serviços das grandes festas. Relíquias do judaísmo de Kanczuga, mas que agora estavam reduzidas a simples fragmentos escondidos entre as ruínas.

Um dos operários foi buscar mais e mais folhas, as quais eu as trouxe para serem enterradas numa guenizá como manda a tradição.

Os homens não pediram nada em troca, e quando chegou o momento de ir-me, nos demos as mãos. O capataz, prometeu juntar todas as páginas adicionais que fossem encontradas para que me fossem enviadas através de um contato local.

Nessa mesma tarde, após assistir a uma cerimônia de reinauguração do cemitério judaico local, me sentei com o prefeito de Kanczuga, Jacek Solek, em seu escritório.

No último ano, por iniciativa própria e com os recursos da própria municipalidade, Solek construiu um memorial aos judeus de Kanczuga no lugar da cova em comum, onde foram enterrados os judeus assassinados pelos nazistas e seus seguidores.

Quando contei ao prefeito sobre minha visita a sinagoga, só então percebi que não havia nenhuma placa, nenhum cartaz, nada que indicasse que em determinada época aquele prédio havia sido uma sinagoga.

Assim, sem ponderar muito, pedi-lhe que fizesse algo a respeito, educada porém firmemente me expressando, pois era importante que os residentes soubessem que num passado remoto houve presença judaica naquele lugar. O prefeito prometeu corrigir a situação, assegurando-me que o assunto seria tratado imediatamente. Então finalizamos a conversa.

Em menos de 24 horas depois, quando já me encontrava em Israel, recebi notícias da Polônia que relatavam que na última reunião da prefeitura de Kanczuga naquela mesma manhã, o prefeito recebeu aprovação para colocar um anúncio na sinagoga.

Quão bom seria se nossos próprios prefeitos em Israel atuassem de forma tão rápida e eficiente no tocante as inquietudes judaicas, pensei. Seguramente, o anti-semitismo é ainda freqüente na Polônia. Notei como muitas pessoas, jovens e adultos, nas cidades e pequenos povoados, apontavam para a kipá em minha cabeça e riam dizendo “xydowski” (judeu em polonês) uns aos outros. E não é difícil de ver pintura anti-semita nas paredes das ruas.

Mas assim mesmo, como fui testemunha em minha recente visita, também existem bons poloneses. Gente que sinceramente se arrependeram do que fizeram aos judeus em sua terra, e que desejam corrigir os erros da melhor forma possível. E pessoas que são verdadeiramente boas e que querem apenas fazer o bem.

Isto, não nos vai fazer esquecer nem por um momento o terrível passado, nem pode ser assim. A memória do Holocausto e as vítimas sempre viverão conosco até o fim dos dias, e não podemos perdoar aqueles que participaram no massacre, seja como executores ou como cúmplices.

Porém, assim como o prefeito e o operário de Kanczuga demonstraram, não devemos perder a oportunidade de criar uma relação com os polacos de bom coração. Fazendo isto, podemos pelo menos, corrigir algumas das injustiças históricas que foram cometidas aos nossos ancestrais, seja através da recuperação de objetos valiosos sentimentalmente ou através da preservação de lugares de interesse e importância para os judeus.

A vontade existe e o desejo também. Não apenas em Kanczuga, mas também em outros lugares como Warsaw, Krakow, Wroclaw e Lodz. Que vergonha seria deixar passar essa oportunidade.