O judaísmo polonês tem futuro?

Vagarosamente, mas nem sem forte energia, o público vai ingressando no interior da Sinagoga Kupa em Cracóvia, enquanto seus cânticos e orações são ouvidos cada vez mais fortes.

Incitados pelas melodias espirituais do Rabino Shlomo Karlebach, unem suas mãos e movem suas pernas numa sintonia artística, preenchendo o ambiente com um dinâmico, porém ao mesmo tempo, suave fervor.

“Pai Misericordioso, aproxima de Ti o Teu servo”, cantam, enquanto o poema do século XVI, Yedid Nefesh, é recitado na Sinagoga. “Ilumine o Mundo com Tua glória, para que possamos nos regozijar”, recitam.

Como vem fazendo os judeus durante séculos, eles recebem a simbólica noiva Shabat com uma mistura de pompa e euforia.

Entretanto este não foi um costumeiro serviço de Cabalat Shabat.

Há mais de 65 anos, esta mesma casa de D-us foi destruída pelos nazistas. Os mesmos saquearam o interior e destruíram o mobiliário da Sinagoga, com o objetivo de apagar o nome de Israel naquele estabelecimento em particular e sobre a face da terra como um todo.

Porém, na última noite de Shabat, este mesmo nome (Israel) esteve sã e salvo na Sinagoga Kupa, quando 150 “judeus escondidos” de toda a Polônia, se reuniram ao redor do santuário de Kupa para reclamar sua tão valiosa herança.

O serviço religioso marcou a abertura de uma conferência de três dias (26, 27 e 28 de outubro), organizada pela Shavei Israel, organização que presido, com o objetivo de permitir que nossos irmãos judeus se reúnam, se conheçam uns aos outros e estudem mais sobre a herança que adquiriram.

E o mais importante de tudo, para revelar-lhes que não estão sozinhos na sua luta em busca da cobrança da identidade judaica.

De fato, algo muito especial está ocorrendo na Polônia, algo que deveria inspirar-nos a todos e dar-nos confiança e esperança para o futuro.

A verdade é que dificilmente poderíamos acreditar que isso pudesse acontecer, que um enorme renascimento ocorresse proveniente de um grande número de poloneses que estão redescobrindo suas raízes judaicas e buscando, de alguma forma, reunir-se com sua gente.

Alguns destes “judeus escondidos” foram criados como católicos, mas descobriram que seus pais ou avós eram judeus. Outros sabiam que eram judeus, porém decidiram esconder sua identidade devido à experiência de seus familiares sob os regimes nazista e comunista.

Entre eles, encontramos Jacek, um jovem de aproximadamente 20 anos, da cidade de Wroclaw, que descobriu suas raízes judaicas há cerca de dois anos.
Certa vez, enquanto assistia um programa de televisão sobre o conflito palestino-israelense junto com sua mãe, esta lhe disse repentinamente: “agora entendes porque teu nariz é tão grande”.

Isso era totalmente novo para ele, especialmente porque sabia que seu bisavô materno foi um alemão que serviu na Wehrmacht (Forças Armadas Alemã) durante a Segunda Guerra Mundial. Entretanto, seu bisavô se casou com uma mulher judia, o que significa que sua avó, sua mãe e ele também são todos judeus de acordo com a Halachá.

Hoje em dia Jacek tem pendurado em seu pescoço, com muito orgulho, uma estrela de David e freqüenta a Sinagoga assiduamente.

Outro jovem que conhecemos, e o chamaremos de Marek, descobriu sobre a origem de sua família por causa de uma tarefa escolar que recebeu quando estava no segundo grau.

Marek e seus companheiros teriam que averiguar sobre a origem de seus sobrenomes. Quando Marek regressou a sua casa e fez a pergunta a seus pais, estes ficaram muito nervosos e tentaram convencê-lo a desistir do projeto.

Entretanto, o efeito foi ao contrário. Isso apenas motivou Marek e despertou sua curiosidade, e desta forma começou a formular um sem fim de perguntas. Finalmente, decidiram contar-lhe a surpreendente verdade; seus avós eram judeus.

Depois que sobreviveram ao Holocausto, devido ao temor, decidiram mudar seus nomes, apagando assim, todo rastro judaico.

Marek passou o último verão em um acampamento judaico, conhecendo a história judaica e praticando o judaísmo. Hoje em dia sonha casar-se com uma mulher judia e construir um lar judaico.

O judaísmo polonês tem futuro?

Depois de tudo o que experimentei no último fim de semana em Cracóvia, me atrevo a afirmar que talvez sim.

Com a queda da “cortina de ferro” e a bem-vinda democracia, as pessoas se sentem livres para penetrar no passado e se expressar como judeus.

Graças ao Rabino Chefe da Polônia, Michael Schudrich, que vem dedicando o melhor de seus anos na reconstrução do judaísmo polonês, o país possui a infra-estrutura necessária para manter uma vida judaica.

E assim, depois de duas ou três gerações nas quais um grande número de judeus polacos vem tentado ocultar sua identidade pelo medo da perseguição nazista, e posteriormente, comunista, seus netos e bisnetos estão começando a retornar.

A eternidade do povo de Israel pode ser contestada por alguém?

Enquanto o serviço litúrgico vespertino na Sinagoga Kupa continuava, comecei a pensar que exatamente a uma hora de viagem, em direção ao Oeste de Cracóvia, encontra-se o campo de extermínio de Auschwitz. Foi ali, que parte de minha família, juntamente com milhões de outros sagrados judeus, foram cruelmente assassinados pelos alemães e seus cúmplices. Meu coração começou a palpitar fortemente.

Entretanto, observei ao meu redor, e vi que as reminiscências do judaísmo polaco, reavivado, recitavam apaixonadamente o “Lechá Dodi”.

“Desperta-te, desperta-te, pois vem tua luz – vem ó luz”, entoaram. “Levanta-te, canta. A Glória Divina sobre ti se revela”.

Sessenta anos depois do Holocausto, os “judeus escondidos” da Polônia, estão realmente despertando-se.

Para muita gente, a Polônia será sempre associada ao conceito de extermínio de judeus. Porém, apesar disso, também está começando a converter-se num lugar de vida dos judeus.

Este é um caminho que deveríamos abençoar.