De Kaifeng a Jerusalém

Lentamente e um tanto hesitantes, Shlomo e Dina Jin entraram na sala, ansiosos para escutar a decisão da Corte Rabínica em relação ao seu pedido para retornar ao Povo Judeu. Era um momento de profundo significado, não apenas para o agradável casal, que havia feito um longo e muitas vezes agonizante caminho, mas também para a comunidade que eles deixaram na China, a sua terra natal.

Shlomo Jin é oriundo de Kaifeng, localizada ao sul do Rio Amarelo, uns 1.100 quilômetros de Pequim. Ele é um descendente da outrora próspera comunidade judaica da cidade, a qual se estabeleceu na area durante o reinado da dinastia Song, fazem mais de 1.000 anos.

De acordo com a lenda, o imperador Song teve dificuldade para pronunciar os nomes hebraicos dos recém chegados, então ele destinou o seu nome de família e o de seis dos seus ministros para os judeus chineses. Estes sete nomes – Zhao, Li, Ai, Zhang, Gao, Jin e Shi – foram usados pelos judeus de Kaifeng através dos séculos e Shlomo traça suas raízes ao clã Jin.

Diferente da maioria das paradas nas andanças do Povo Judeu, a China proporcionou-lhes agradáveis boas-vindas, livres de ódio e opressão tão presentes em todos os lugares da Diáspora.

Através dos séculos, os judeus da China dedicaram-se ao comércio e a várias profissões, inclusive muitos alcançaram destacados cargos no sistema civil de serviços do império. A comunidade judaica de Kaifeng deve ter alcançado no seu auge, durante a dinastia Ming, aproximadamente 5.000 pessoas.

Em 1163, os judeus de Kaifeng construiram uma belíssima sinagoga, que foi renovada e reconstruída muitas vezes. Ela estava localizada no distrito judaico da cidade, no coração do que foi uma rua chamada Jiao Jing (ou “Viela do Ensino da Escritura”).

Desejando preservar a sua memória coletiva para as futures gerações, os judeus de Kaifeng ergueram monumentos de pedra conhecidos como empunhaduras, construídos em 1489, 1512, 1663 e 1669, nos quais eles gravaram a história de sua permanência na China. Duas dessas empunhaduras estão agora no museu municipal de Kaifeng.

Em meados da primeira década do século XIX, a assimilação generalizada e os casamentos mistos causaram grandes perdas, enfraquecendo a comunidade numérica e espiritualmente. O último rabino de Kaifeng faleceu durante a primeira metada do século XIX e algumas décadas mais tarde, tanto a sinagoga como a comunidade à qual ela servia já não existiam mais.

Mas a estória não terminou aí. Contra todas as probabilidades, os judeus de Kaifeng lutaram para preservar o seu senso de identidade e consciência judaicas, passando adiante o pouco que sabiam para os seus filhos e netos. Simultaneamente eles pediram ajuda à coletividade judaica mundial, implorando, há um século atrás, pelo envio de professores e rabinos para educar a sua juventude e restaurar o seu conhecimento e os hábitos judaicos.
Infelizmente, aquele pedido de ajuda foi em grande parte ignorado e parecia que a cortina iria finalmente fechar-se sobre a saga de mil anos da coletividade judaica de Kaifeng.

Até este mês!

Pois quando Shlomo Jin se apresentou perante a corte rabínica para a conversão em Jerusalém duas semanas atrás, ele marcou um ciclo histórico que se fechava. Pela primeira vez, uma família de descendentes dos judeus de Kaifeng estava retornando ao Povo Judeu e à Terra de Israel.

Shlomo e sua esposa passaram o último ano estudando Judaísmo sob a tutela de um estudante de yeshiva (academia rabínica) que domina o idioma chinês, recrutado para este propósito pela organização Shavei Israel. A filha de Shlomo, Shalva, já tinha previamente submetido-se à conversão por uma corte rabínica em Haifa e agora era a vez de Shlomo e sua esposa Dina de fazerem o mesmo.

Eles responderam a perguntas sobre vários assuntos referentes a lei e a hábitos judaicos e, demonstraram o seu comprometimento em viver um estilo de vida judaico e observante. Os rabinos sentiram simpatia e respeito pelo casal e estavam nitidamente comovidos pela sua saga pessoal e histórica.

Quando eles souberam que foram aceitos novamente como parte do Povo Judeu, as lágrimas de alegria de Shlomo e de Dina fluíram livremente e com razão. O sonho o qual por tanto tempo eles alimentaram finalmente estava se tornando realidade.

Mas eu não tenho dúvidas que, pelo menos algumas dessas lágrimas foram inspiradas pelo tratamento que eles tiveram nas mãos do governo de Israel, o qual tem demonstrado constantemente uma aterroradora falta de interesse pelo destino dos descendentes dos judeus de Kaifeng, várias centenas dos quais ainda permanecem na China.

Pouco após o estabelecimento de relações diplomáticas entre China e Israel em 1992, Shlomo Jin foi até a embaixada de Israel em Pequim, portanto em suas mãos a sua permissão de residência chinesa onde constava a sua nacionalidade como “Judeu”. Ele quis apresentar um pedido para fazer aliá para assim poder realizar o sonho de sua vida, ir para Tzion (Sião).

Quando o funcionário da embaixada soube sobre a razão da sua visita, pediu a Shlomo que se retirasse. Por dois dias inteiros ele esperou do lado de fora, com a esperança de que alguém da embaixada pelo menos saísse para escutar a sua estória e talvez tentasse ajudar. Mas tal como os apelos de ajuda de seus ancestrais para a coletividade judaica mundial, o apelo de Shlomo também foi ignorado e ele foi forçado a retornar à Kaifeng de mãos vazias.

Quando finalmente, Shlomo chegou a Israel cinco anos atrás, ele e sua família receberam um insensível tratamento pelo Ministério do Interior, o qual repetidamente quis expulsá-los do país. Ao invés de acolher Shlomo como a um irmão a muito perdido que retorna ao lar, as autoridades israelenses trataram-no como um estrangeiro ilegal.

Esperançosamente, aqueles dias agora ficaram para trás para a família Jin e eles podem olhar adiante para construir um futuro judaico em Jerusalém. Shalva está fazendo o seu serviço nacional no Hospital Shaarei Tzedek, enquanto isto Shlomo e Dina estão procurando trabalho.

A odisséia da família Jin é uma lição inspiradora sobre o poder da memória judaica. Ela demonstra convincentemente que não importa o quão distante uma alma judia possa estar – até mesmo em terras longínquas da China – ela pode e, finalmente retornará.

Há muito mais almas judias lá fora, batendo na nossa porta coletiva, esperando para poderem entrar. O desafio para Israel é encurtar a burocracia e abrir-lhes o caminho para que possam fazê-lo.